O que é e como impacta empresas que participam de contratos públicos
Participar de licitações públicas deixou de ser apenas uma questão de apresentar o menor preço. Cada vez mais, o governo tem buscado mecanismos para melhorar a gestão de contratos, reduzir disputas e incentivar maior eficiência na execução. É nesse cenário que surge a matriz de riscos, instrumento previsto na Lei nº 14.133/2021 como fundamental para o equilíbrio contratual.
Mas, afinal, o que significa matriz de riscos? Por que ela deve ser analisada com atenção por empresários que participam de licitações? E como se proteger de problemas futuros decorrentes desse documento?
Neste artigo, explicamos de forma didática tudo que você precisa saber sobre o tema.
1. O que é uma matriz de riscos? Entenda o conceito legal
A matriz de riscos é um anexo do edital de licitação ou do futuro contrato administrativo que define, previamente, quais riscos do contrato serão assumidos pela Administração Pública e quais ficarão sob responsabilidade da empresa contratada.
Em outras palavras, serve para distribuir responsabilidades: caso algum evento negativo ocorra durante a execução do contrato (como atraso na entrega de insumos, greves, alterações cambiais, aumento abrupto no custo de materiais, desastres naturais, interferências administrativas etc.), a matriz vai indicar quem arca com os prejuízos.
Esse instrumento está previsto principalmente nos arts. 22, 103 e 104 da Lei nº 14.133/21, que estabelece que:
- a matriz pode conter hipóteses de riscos previsíveis;
- deve estar anexada ao edital ou ao contrato;
- deve ser usada especialmente em contratos de grande vulto, obras ou serviços complexos, concessões e parcerias público-privadas (PPP).
2. Para que serve a matriz de riscos?
A matriz de riscos tem quatro funções centrais:
- Distribuição clara das responsabilidades: evita incertezas sobre quem responde por cada tipo de evento, trazendo maior segurança jurídica.
- Eficiência na execução contratual: incentiva as partes a adotarem medidas de prevenção e mitigação.
- Redução de conflitos e disputas judiciais: ao prever quem arca com o risco, evita litígios sobre reequilíbrio econômico-financeiro.
- Estimativa mais realista de preços: ao saber quais riscos assumirá, a empresa pode calcular melhor seus custos e formular uma proposta mais responsável.
3. Tipos de riscos mais comuns previstos na matriz
As matrizes costumam classificar os riscos em diferentes categorias, a depender do tipo de contrato. Entre os mais recorrentes:
| Tipo de Risco | Exemplo prático | Geralmente atribuído a |
|---|---|---|
| Riscos geológicos/ambientais | Solo inadequado não identificado; contaminações | Contratante |
| Riscos de projeto | Erros ou omissões em estudos do projeto executivo | Contratante |
| Riscos de suprimentos | Atrasos na entrega de materiais, descontinuidade de insumos | Contratada |
| Riscos trabalhistas | Greves ou passivos trabalhistas | Contratada |
| Riscos cambiais | Variação do dólar impactando importação de equipamentos | Apurado conforme matriz |
| Riscos políticos/regulatórios | Mudança de legislação impactando a execução | Contratante |
| Eventos de força maior | Inundações, pandemias, guerras | Normalmente repartido |
4. Por que o empresário deve analisar com atenção a matriz antes de apresentar proposta
Empresas que participam de licitações, especialmente nas áreas de obras, serviços de engenharia, concessões ou fornecimentos complexos, precisam avaliar cada risco atribuído. Entrar num contrato sem estar ciente dos riscos assumidos pode tornar a execução inviável.
Antes de formular o preço, é essencial observar atentamente:
- Se há transferência abusiva de riscos ao licitante;
- Se o risco está corretamente classificado como da contratada, considerando sua real capacidade de controlá-lo;
- Se há previsão de compartilhamento sensato de riscos imprevisíveis ou de força maior;
- Quais custos preciso estimar devido aos riscos atribuídos à empresa;
- Se a matriz está clara ou ambígua, permitindo contestá-la no momento oportuno.
5. Atribuição indevida de riscos: o que dizem os tribunais
Órgãos de controle, como o TCU, entendem que não é admissível a transferência de riscos que a Administração tem condições de mensurar e controlar, sob pena de violação ao princípio do equilíbrio econômico-financeiro e da competitividade da licitação.
Em diversas decisões, o Tribunal já declarou ilegais cláusulas que impunham à contratada riscos de projeto, desapropriações, interferências administrativas ou atrasos no pagamento decorrentes de responsabilidade pública.
Exemplo prático:
Em um contrato de obra rodoviária, a matriz previa que atrasos na remoção de interferências (rede elétrica ou adutoras) ficariam sob responsabilidade da empresa. O TCU entendeu que esse risco deveria ser do órgão público, pois a remoção dependia de atos administrativos que fogem completamente ao controle da contratada.
6. O que fazer se a matriz de riscos estiver desfavorável?
Empresas atentas podem agir em diferentes momentos:
- Antes da licitação: analisar o edital e matriz com apoio jurídico/técnico. Se houver transferência abusiva de riscos, é possível:
- solicitar esclarecimentos ao órgão;
- impugnar o edital apontando violação à competitividade ou ao equilíbrio;
- optar por não participar, se os riscos forem elevados demais.
- Durante a execução: se ocorrer evento previsto como risco do contratante, mas que esteja sendo indevidamente imposto à empresa, deve-se:
- notificar formalmente a Administração;
- requerer o reequilíbrio econômico-financeiro contratual;
- produzir evidências técnicas de que aquele evento está previsto como responsabilidade pública.
7. Como precificar corretamente diante da matriz de riscos
Uma das grandes vantagens de uma boa matriz é permitir orçamentos mais precisos e responsáveis.
Para isso, recomenda-se ao empreendedor:
- Mapear cada risco atribuído à empresa.
- Avaliar a chance de ocorrência do risco durante a execução.
- Mensurar o impacto econômico caso ocorra.
- Inserir contingências no preço, de forma equilibrada — evitando propostas temerárias, mas sem se tornar pouco competitivo.
- Simular cenários adversos, especialmente em contratos longos ou de grande vulto.
Esse cálculo deve envolver o setor técnico, financeiro e jurídico da empresa. Em contratos muito complexos, a contratação de uma consultoria especializada pode fazer a diferença entre lucro e prejuízo.
8. Benefícios de uma matriz bem estruturada para a empresa
Apesar de parecer, à primeira vista, um instrumento que apenas “repassa riscos ao licitante”, a matriz pode representar, para empresas responsáveis, uma oportunidade de concorrer com mais segurança e até reduzir o “risco Brasil” nos contratos públicos.
Os principais benefícios são:
- Maior clareza na formação de preços, evitando prejuízos inesperados;
- Planejamento preventivo, com adoção de medidas para mitigar riscos próprios;
- Segurança na execução, sabendo quando pode pleitear reequilíbrio;
- Possibilidade de diferenciação competitiva, com propostas mais eficientes;
- Redução de litígios, tornando a relação contratual mais estável.
9. Conclusão
A matriz de riscos passou a ser peça-chave nas licitações regidas pela nova Lei de Licitações. Para o empresário que deseja crescer no mercado público de forma sustentável, compreender e analisar esse documento é tão importante quanto dominar o objeto do contrato ou ter preço competitivo.
Ignorar a matriz ou tratá-la como mera formalidade pode levar a desequilíbrios financeiros, litígios ou até à ruína contratual. Por outro lado, empresas que adotam uma postura preventiva — estudando a matriz, questionando cláusulas abusivas e precificando os riscos de forma responsável — tendem a se destacar e prosperar com segurança no segmento de compras governamentais.
